
2h45 da manhã, o hábito leva-me a ligar a televisão para adormecer. Um filme qualquer, num canal qualquer com um qualquer actor que numa situação cliché tenta engatar uma rapariga enxuta num bar como todos os outros. A conversa de engate, essa sim totalmente inovadora. Reparando que a incauta moça tinha acabado de sair de um jantar de empresa, com um ar de desprezo pleno começa: “Típico. Miúda nova, vinda de uma terrinha qualquer com um nome angélico, primeira a tirar o curso na família de agricultores, menina dos olhos do pai, orgulho dos chás das amigas da mãe, embeiçada pelo patrão, novo, cheio de dinheiro, apesar dos avisos de todas as colegas da sua má fama de conquistador barato, tenta ser a salvadora daquela alma perdida pensando que o pode resgatar de uma vida devassa e vazia. "Estou a dar-lhe a oportunidade de quebrar o padrão e passar a noite comigo. O que me diz?” CORTA
Mulher mais velha ao balcão do mesmo bar algumas horas mais tarde. “À espera de alguém?” “Sim, do meu noivo.” “Parabéns.” “Obrigado” “E ele trata-a bem?” “Não que tenha alguma coisa a ver com isso, mas sim muito bem.” “Parabéns... Afinal, conseguiu disfarçar a idade que tem e arranjar um homem mais novo, que se chega atrasado, bem, de certeza que ambos concordamos que deve estar a fazer algo mais interessante do que estar consigo. Na verdade, apesar de achar que o caçou ele ainda vai perceber a tempo que é apenas uma velha passa desejosa de aproveitar os últimos anos de fertilidade. Parabéns pelos escassos poucos anos que lhe restam de felicidade aparente, até que ele acorde ao seu lado e a veja como é, uma oportunista procriadora.” Chegou feliz e noiva, saiu detonada com a única companhia possível; o visionário que lhe preveu um desfecho negro para se auto presentear com uma noite inconsequente que ambos “mereciam”.